foto de autoria desconhecidaSexta-feira, à noite, lá pelas 23h. Ponto da Brigadeiro. Entro no ônibus, ainda relativamente vazio. Sento perto da porta de saída, no fundo.
Dois pontos depois, sobe no veículo uma mulher com seu filho- o menino devia ter uns 8 anos. Fogo nos olhos. Dava pra ver que o moleque devia ser daqueles bem pentelhos, um verdadeiro pestinha.
Ainda há lugar para os dois. A mãe senta, o menino não. Quer ficar em pé. Não demora muito para que o garoto comece a andar pelo ônibus. Inicia-se uma brincadeira um tanto quanto perigosa:
- Olha mãe! Quando o motorista para o ônibus eu seguro com uma mão só, olha!
- Tá bom, filho! Agora senta aqui do lado da mãe e sossega, pelo amor de Deus!
alguns minutos depois...
- Olha mãe! Consigo segurar só com 3 dedos. ( o pestinha tinha tirado o dedão e o "mindinho" da barra)
- Ai, filho! Você vai se machucar, vem pra cá, vem!
Vocês já devem ter sentido isso antes: sabe quando tá na cara que vai dar merda? Pois é...
- Mãe, vou tentar segurar com um dedo só. (deixa apenas o indicador segurando a barra)
Segundos depois, o motorista dá aquela brecada típica. Olho para o corredor e vejo um acontecimento cinematográfico, coisa de David Fincher: o endiabrado voa pelo ônibus e a cabeça dele vai de encontro à catraca.
- Wellington!!!!!!¹ Filho de Deus, eu te avisei!
O demônio de alguns minutos atrás vira um chorão, e deve-se dizer que não era qualquer choro, eram gritos de dor. Pelo que vi, não abriu nenhuma ferida, mas pude presenciar a formação de um galo instantâneo. A testa do garoto ficou deformada.
- É isso que dá não sossegar!
- Mãe, tá doendo muito!
- Ai, filho, aguenta aí! A mãe não pode descer agora, quando chegar em casa a gente coloca gelo, tá?
O interessante é que, na hora do acidente, pouquíssimas pessoas prestaram ajuda ao garoto. Claro, a mãe rapidamente levantou e não havia muito para fazermos mesmo, além de não ter sido nada grave. Mas foi hilário olhar as expressões das pessoas que não aguentavam mais as macacadas do menino. Uma garota, na minha diagonal, com fones no ouvido, parecia tentar esconder o riso, mas seus olhos a denunciavam: estava morrendo de rir por dentro. O senhor que lia jornal ao meu lado, balançava a cabeça afirmativamente, como se pensasse: "Isso mesmo, é isso aí!" As duas moças que pareciam ser colegas de trabalho, sentadas na minha frente, olhavam uma pra outra, dialogando pelo olhar: " É , amiga! Já tava demorando, tava imaginando que isso ia acontecer." Até o cobrador que estava 1/2 dormindo e 1/2 acordado pareceu ter ficado contente.
Mas o moleque não parava de chorar. Aqueles que pensaram "bem feito!", como eu, se arrependeram: preferiam o moleque fazendo travessuras do que gritando e chorando. E o choro continuava. Pensava: "poxa, já bati a cabeça forte quando era criança(caí da balança uma vez), mas duvido que fiquei chorando todo esse tempo, uma hora tem que passar a dor pô!" Alguns começaram a olhar com desconfiança, achavam que era frescura do garoto e que o choro verdadeiro agora tinha se transformado nas famosas "lágrimas de crocodilo." De qualquer forma, o pensamento dominante era: "Meu Deus! Em qual ponto essa mulher vai descer com esse moleque, pelo amor de santo Cristo!" A mulher não olhava para a janela, não levantava, não dava sinais de que seu ponto estava chegando. Vagarosamente, o choro foi diminuindo. Ou a dor estava passando ou a garganta do carinha cansou um pouco. Foi quando descobrimos que, talvez, o choro forte é melhor do aquele miado de 10 em 10 segundos:
- "Snif!".............................."Snif!"...................................."Snif!"................................."Snif!"
O choro fininho e irritante não estava mais diminuindo, parecia ter ficado constante. Alguns olhares para o menino não eram lá muito amistosos. Alguns ali gostariam que não houvesse catraca e que, assim, o pestinha tivesse sido arremessado para mais longe e outros queriam pegar o menino pela gola e arremessá-lo de novo contra a catraca.
Então, A MÃE DO GAROTO COMEÇA A DORMIR! O ônibus inteiro olhava e não acreditava. O pior foi que o peste, ao perceber que ela estava dormindo, parecia querer chamar a atenção da mãe e começou a chorar mais alto de novo. A mãe, ao invés de acordar e mandar o menino ficar quieto, continuava dormindo.
Um senhora, sentada atrás de mim, murmura alto: " Ai, ai, ai!" Mas não tem jeito, a mãe parecia estar no 18º sono. Pensei: acho difícil essa mulher chegar viva no ponto dela, o pessoal está começando a ficar furioso.
Chegou o meu ponto, desci.
1. Estou supondo a grafia do nome
7 comentários:
Ahh,histórias do cotidiano paulistano,nada mais intrigante,saia de casa,garanto que vai ser,no mínimo,interessante! ^^
e caramba Ivan,imagino a tua cara na hora,aiuhaihaiaha
Fiquei imaginando o que ele deve fazer numa sala de aula....
esse ônibus da foto deve ser um Terminal Capelinha. só pela fúria com que as pessoas tentam subir no troço lotado. haha
To rindo muito aqui, claro que se eu estivesse no ônibus não estaria lá tão contente,acho que a mãe está tão acostumada com o choro ardente e contínuo do filho
"Welinto" que dorme mesmo sem a menor cerimônia. E como disse a Mara, imagina essa "gracinha" numa sala de aula??? socoroooooooooo
Taí : esse tema é muito legal ,tem muitas coisas hilárias que acontecem nos ônibus.E quando a criança passa mal e começa a vomitar ?Uma vez a mãe pos o filho na janela prá vomitar e voou respingos , com o vento ,pelas outras janelas do ônibus...eca .Aguardo o capítulo 2.
Bem feito pro mueleque, devia ter voado pela janela!
quem sabe ia aparecer na tv, temos q ter mais criatividade, chega de jogar os filhos da janela do apartamento!
Isso é falta de colocar limites nesses monstrinhos! Se a mãe consegue dormir dentro do ônibus, sabendo o pestinha que tem,imagine como deve ser essa criaturinha em casa, na escola...e sobra prá quem não pariu Mateus...embalar!
Credo!
Postar um comentário