Segura o cara! Ou melhor, não segura não...O ano era 2007. Quem acompanhava a premiação do Globo de Ouro, em janeiro daquele ano, pode ver Warren Beaty, 72, subir ao palco para receber o prêmio Cecil B. DeMille, homenagem feita pela Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood àqueles que construíram uma grande e influente carreira cinematográfica. Ou seja, é, em seu conceito, um prêmio para artistas que "já deram" muito ao cinema; diretores ou atores de certa idade que estão, de certa forma, aposentados. Beaty,emocionado, subiu ao palco e fez um dos discursos mais lúcidos e impressionantes que já vi. Disse que se orgulhava de seu legado artístico, de seus prêmios e agradeceu às pessoas que possibilitaram toda a sua brilhante carreira. Afirmou que houve um momento de sua vida em que ele sentiu que estava envelhecendo: a imaginação não fluía, os roteiros passaram a ficar desleixados, as atuações preguiçosas etc. Logo após, desviou os olhos em direção a Clint Eastwood, sentado numa das mesas da frente pois concorria duplamente como melhor diretor por "Cartas de Iwo Jima" e "A Conquista da Honra". "Clint, eu tenho ódio de você!", disse Beaty, arrancando risadas da plateia. "Você é mais velho que eu, fez muitos mais filmes que eu e ganhou mais prêmios que eu. Tem a carreira dos sonhos e, ao invés de estar vivendo numa casa perto de um lago, fumando um charuto e bebendo whisky, você me faz dois filmes sobre a 2ª Guerra, abordando dois pontos de vista diferentes, viajando pelo mundo para realizar tomadas difíceis e, além de tudo, ainda faz a trilha sonora", completa o premiado. Clint, visivelmente sem graça, apenas acenava elegantemente.
A verdade é que Beaty estava certo. Clint Eastwood é ator desde o começo da década de 50. A maioria de seus filmes eram de baixo orçamento, filmes B, nos quais fazia sempre o mesmo papel: o cara macho, durão, rude e que estava acima da lei. Nunca foi grande ator, mas teve oportunidade de conviver com ótimos diretores, como Sérgio Leone. Fez muitos faroestes e teve em Dirty Harry um de seus grandes personagens. Tendo tudo isso em vista, a Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood deu a Eastwood o Cecil B. DeMille, em 1988. Afinal, Clint tinha 58 anos e, provavelmente, ninguém esperava muito dele.
E...
poderia ficar 456874506475864705867406 anos aqui escrevendo, mas as imagens dizem melhor o que Clint fez depois disso:
Dirigindo Forest Whitaker, em "Bird", biografia de Charlie Parker. O curioso é que ele ganhou o próprio globo de ouro de melhor diretor, além de indicação à Cannes, um ano após ter ganhado o "prêmio dos aposentados"
Aos 62, dirige e atua em "Os Imperdoáveis". Chovem prêmios, como o Oscar de filme e diretor para o velho.
Aos 65 anos, dirige e atua com Meryl Streep em "Pontes de Madison"
Só dirigindo agora, aos 73. "Sobre meninos e lobos" também foi muito premiado e Clint se consagrava com um cinema de 1ª.
74 anos. Dirige e volta a atuar em "Menina de Ouro". Premiações despencam: Clint repete a dobradinha no Oscar e leva Direção e Filme. Hilary Swank leva o Oscar de atriz.
Aos 76, Clint faz filme sobre heroísmo que discute o que é o heroi verdadeiro e o fabricado. Tema muito semelhante ao último post deste blog. De novo, chovem prêmios.
Ainda aos 76: filme falado em Japonês. Talvez um dos mais lindos filmes de Clint. E dá-lhe prêmios de direção pro cara.
Aos 78, dirige Angelina Jolie, em "A Troca"
78 ainda. "Gran Torino", que filme! Mais uma vez, Clint dirige a si mesmo e ajuda na trilha sonora.ACABOU?
NÃO!
Olha o cara aí! Atualmente dirigindo Matt Damon, num filme sobre Nelson Mandela, que será interpretado por Morgan Freeman. O velho não para!Não é apenas aumento de produção. Clint só melhora, fez seus grandes filmes após os 70. Como diretor, é um dos melhores da atualidade; trata de temas profundos com um toque esteticamente classicista, equilibrado, sendo reconhecido pela sua habilidade na composição de planos. Longe dos mandamentos hollywoodianos, Clint é um diretor sem medos, não se acomoda, vai atrás de conhecimento puro e realista para compor seus filmes. Já atingiu uma maturidade que lhe permitiu filmar os temas que quer, da maneira que quer(muitos o consideram pessimista), com uma segurança ímpar, que transparece para os espectadores que notam a concisão da direção nos filmes de Eastwood. ARTE das grandes.
Que o cara viva e faça cinema até os 200 anos.




